À minha mãe
todo dia me recebes com um cansaço agudo na voz, a sua dor me desespera, tento achar um novo coração para o seu corpo pretérito, e um novo ponto de luz para seus olhos quase tristes.
penteio amorosamente seus longos fios de cabelo branco, os únicos que restaram. seu corpo se desfaz em lágrimas e percebo que delas fui feita.
a vitalidade no meu corpo jovem é o sofrimento de não poder oferecê-la, a compreensão que julgo assimilar é o seu reflexo nas bordas do meu olhar o aclamado amor que luto para encontrar nada mais é do que o conforto e o calor de suas entranhas, quando ainda não havia tempo a nos separar
minha querida mãe: sou o mesmo cansaço, a mesma solidão, as lágrimas de que fomos feitas, a mesma busca infantil por um amor que redima a dor
me deixa agora cuidar da sua menina acarinhar sua pele marcada beijar as cicatrizes, desalinhar o seu olhar lhe oferecer toda a vida que formou-se a partir de ti
e quem sabe assim juntamos os pedaços de nossas almas, que perderam-se voando pelos ares em todos os partos que já enfrentamos juntas.
Escrito por tenille às 13h21
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