Todo o mar


 

IMITAÇÃO DAS ÁGUAS

De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia, te parecias.

Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na praia cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,

e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

João Cabral de Melo Neto



Escrito por tenille às 16h37
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Estou jogando na caixa do correio mais uma carta para você que só me escreve alusões, elidindo fatos e fatos. É irritante ao extremo, eu quero saber qual foi o filme, onde foi, com quem foi. É quase indecente essa tarefa de elisão, ainda mais para mim, para mim! É um abandono quase grave, e barato. Você precisava de uma injeção de neo-realismo, na veia.

* Ana Cristina César – Luvas de Pelica

Escrito por tenille às 16h20
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09 de fevereiro

18:31

no fim de tarde

da espera

nasceu Oxalá Ian

 

menino-branco da cabeça aos pés

passando pelo rosa

(que dizem ter puxado do pai)

da mãe traz a vida, força

que os uniu na vontade do parto,

além dos lábios carnudos

 

a tia viu de longe mãos de pianista

o pai media menino cintura abaixo

certificava

 

nosso Oxalá Ian nasceu

faminto na terra de São Salvador

sedento numa tarde de sexta-feira

 

os olhos fechados

em pleno baile de carnaval

 

 

***

 

 

me ofereceste um mar de amor

 

e na doce umidade de sua boca

saí para colher as gotas salgadas dessa vida.

 

 

***

 

perguntas de beira de rio

 

*

a inocência é feita de nuvens ou de algodão doce?

 

*

foi o vigário quem contou a primeira história de amor?

 

*

será o amor uma queda e eu uma louca?



Escrito por tenille às 22h54
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***

 

Eu queria levar Glorinha comigo às maiores distâncias da minha vida”.

   Guimarães Rosa

 *

 Todo cais é uma saudade de pedra”

   Fernando Pessoa


***

 

respostas dos quatro ventos

 

 

*

tentar entender uma mulher até os fios do cabelo

 

                                        costuma causar calvície

 

 

*

surgirás de dentro de mim

                                          quando lá

                                          já não lhe couber

Escrito por tenille às 22h53
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