Noite,
berço dos profundos mistérios,
ladainhas, ecos ancestrais
(és ainda mais noite
no recôncavo negro da Bahia)
Madrugada se anuncia pelo toque do atabaque
o exílio da noite se dissipa nos corpos negros
das mulheres desfeitas em ventos
e tremores de terra
Estrelas atentas, instrumentos a postos,
o céu curvado em reverência
poeira de tempos tão antigos
recompondo o espírito dos filhos apartados.
O latim denuncia na língua, o que germinou
da caminhada marítima que os trouxeram pra cá.
Santos católicos na roda de samba
terços e guias numa só comunhão
Na presença dos orixás,
a vocação para a natureza
e a certeza de que somos essa mesma caminhada
que ultrapassa a vida
que gera filhos mestiços,
fluxos de um mesmo tempo,
guerreiros da gira de olorum.
***
Recôncavo
Em teu ventre
verde
negro
bundo
gerações infindas
em outra língua
saúdam o mesmo mundo.
Em teu seio
roxo
firme
muito
agarram-se loucas,
transviados
devotos.
Na alma: a carne, a fome
o osso
orgia ancestral
no seu desbunde mestiçoso.